12 mai 2011
Entendendo o Envelhecimento Populacional
Procuramos entender a saúde das pessoas na maturidade como uma busca de qualidade de vida. Temos como referência que qualidade de vida é uma resultante do equilíbrio entre saúde física, estado psicológico, nível de independência nas relações sociais e relação com o meio ambiente. Sem dúvida algo em que gostaríamos de chegar mas, por sem complexo exige de cada um passar da informação para o conhecimento, isto demanda busca pessoal caminhando para a consciência crítica.
Que idéia cada um tem da velhice? Esta questão é tratada pela Gerontologia Social que estuda os fenômenos humanos associados ao fato de envelhecer, processo inerente a todo ser humano.
Vejamos na Gerontologia há três concepções de velhice:
Velhice Cronológica: é objetiva quanto ao dado numérico que apresenta em relação à idade, mas é vazia quando não leva em conta o impacto do tempo sobre cada um. A história de vida, o percurso percorrido, a maneira de viver, o estado de saúde, o tipo de trabalho a que tem se dedicado, fazem pessoas da mesma idade cronológica serem extremamente diferentes, por isso, é frágil dizer que todas as pessoas com mais de 60 ou 70 anos são desta, ou de outra forma, só tendo a idade como referência.
Velhice Funcional: emprega o termo velho como sinônimo de incapaz ou limitado. Estabelece sempre a relação entre velhice e limitações. É errôneo pois a velhice não representa, necessariamente, incapacidade. Há redução na capacidade funcional, como ocorre em qualquer organismo vivo, mas não há impedimento para vida plena. Os mais velhos tentam mostrar que são capazes, mas a sociedade e, principalmente, a família estimulam que o idoso assuma sua incapacidade e aceite ser dependente.
Velhice Vital, é a concepção mais equilibrada e moderna. A velhice constitui uma etapa na experiência humana. Pode e deve ser uma fase positiva do desenvolvimento individual e social.
O corpo vai passando por mudanças e encontra até mesmo limitações, no entanto, isto não significa que a pessoa não continue se desenvolvendo como indivíduo inteligente, consciente e crítico.
É necessário ter consciência dessa possibilidade, querer viver interagindo com outras pessoas, de todas as idades, ser crítico diante das idéias que lhe apresentam sobre a velhice.
Em nossa realidade a velhice ainda é frequentemente vista como uma fase de fragilidade, o que induz a idéia de dependência. Daí a importância da reflexão a seguir:
“A involução senil de um homem produz-se sempre no seio da sociedade; ela depende estreitamente da natureza dessa sociedade e do lugar que nela ocupa o indivíduo em questão.” Simone de Beauvoir.
A autora nos apresenta a problematização da relação entre o homem e a sociedade, mostrando a questão social do envelhecimento humano como decorrência dessa relação.
Em seguida uma nova questão se coloca para nós:
Por que aumentou o interesse pela velhice, na atualidade?
Encontraremos respostas nos seguintes itens:
a- Demografia: leva-nos a perceber a necessidade de uma nova ordem social, por conta das mudanças de tamanho das faixas etárias. Diminui a faixa de crianças e adolescentes e, gradativamente, aumenta a faixa dos mais velhos. Nos países desenvolvidos esse aumento é mais acentuado, acarretando maiores problemas demográficos. Este fato novo modifica a economia uma vez que há aumento da população passiva, não produtiva. As pessoas vivendo mais tempo precisam receber suas aposentadorias e pensões também por mais tempo. É inevitável que a população ativa do presente tenha maior responsabilidade sobre este fato e sobre a criação de novas possibilidades, até por interesse próprio futuro.
b- Política: os políticos têm dois grandes motivos para considerar os idosos: necessidade de propor soluções engajadas aos movimentos sociais ou ao sujeitos coletivos organizados, que dizem respeito ao envelhecimento populacional. Os idosos vão deixando de ser uma minoria para passar a um grande contingente de eleitores idosos.
c- Opinião Pública: todo governante sabe que é imprescindível contar com o apoio da opinião pública, por isso o interesse em consultá-la continuamente. Em muitos momentos essa preocupação com os velhos se traduz em atitudes protecionistas e assistencialistas. Os meios de comunicação confundem, muitas vezes, a opinião pública apresentando filmes, fotos, programas, onde a velhice é mal retratada ou aparece de forma negativa, jocosa ou inferior.
E os velhos, como se colocam diante do que, em geral, pensam sobre eles. Há três possibilidades mais comuns:
- negação da velhice: esconde a idade, não fala sobre esta questão, refere-se à velhice como algo negativo e distante, faz tudo para mascarar a realidade pessoal;
- segregação, organização de grupos fechados de velhos, com intuito de proteção, acredita estar se protegendo de agressões dos mais jovens e tendo compreensão de seus iguais;
- consciência crítica em relação à própria condição e em relação à velhice em geral. Atitudes dos velhos diante dos fatos e ações que se manifestam sobre eles:
Com atitude crítica: tem consciência de si, de suas limitações e possibilidades; participa de sujeitos coletivos organizados, sabe que a qualidade de vida precisa ser conquistada coletivamente.
É importante conhecer como isto vai se dando no mundo, para podermos ir entendo a realidade local.
Atualmente, no mundo, estão 629 milhões de idosos (pessoas acima de 60 anos), assim distribuídos:
53% Ásia
25% Europa
8% América do Norte
7% América Latina e Caribe
7% África
360 milhões residem em países em desenvolvimento
269 milhões residem em países desenvolvidos
Nos países desenvolvidos esse envelhecimento populacional se dá de forma gradual, mais lentamente, acompanhado de progresso sócio-econômico e conseqüente melhoria das condições de vida.
Nos países em desenvolvimento esse processo é mais rápido, não permitindo que o planejamento e melhorias cheguem para todos os idosos. Por exemplo, na França foram necessários 115 anos( de 1865 a 1980) para a população idosa passar de 7% para 17%. No Brasil em 20 anos ( 1996 a 2016) passaremos de 7% para 14% de idosos.
A cada ano a população brasileira tem incorporado mais 650mil idosos.(Berzins, 2003,p19).
A partir dos estudos demográficos já sabemos que o aumento de velhos no mundo, e no Brasil, é uma realidade. Temos, por isso, que avaliar algumas questões que se evidenciam na velhice para que possamos entendê-las e eliminar possíveis idéias preconceituosas.
Na velhice pensar na qualidade de vida significa garantir ações inclusivas, preservando autonomia, com exercício de cidadania e significados no viver. Assim é necessário verificar as interelações entre jovens e velhos, inclusive clarificar o papel da família que, na velhice, não pode ser vista unicamente como a célula protetora. Aprendizagem, memória, criatividade, resolução de problemas são capacidades humanas sem data de validade, mas, que podem ter uma idéia de finitude pelo desconhecimento do processo de viver.
Uma das questões que mais afligem os indivíduos ao pensarem no envelhecimento, pessoal ou de outros, é o que se refere às capacidades intelectuais de criar, aprender, resolver situações novas e memorizar. Existe uma atitude, identificada na grande maioria das pessoas, que acredita serem naturais essas perdas do envelhecimento e, de que, só nos resta compreender e viver com as limitações.
A população brasileira, segundo dados do IBGE (2000), vem apresentando nas últimas décadas uma transição demográfica acelerada, tendo como principais fatores a queda dos níveis de fecundidade, mortalidade e o aumento da longevidade.
Neste final de século, com 8 658 000 idosos temos em cada grupo de 20 brasileiros uma pessoa com mais de 65 anos. Em 2020 essa relação será de 13 para 1.
Se por um lado a longevidade dos indivíduos decorre do sucesso de conquistas no campo social e da saúde, representam novas demandas por serviços, benefícios e atenções que se constituem em desafios para governantes e sociedade do presente e do futuro. A população idosa brasileira tem 82% de seu contingente vivendo em cidades, o que exigirá que as mesmas se aparelhem para poder oferecer recursos demandados pelos idosos.
É preciso, portanto, um novo olhar sobre a velhice: o homem é capaz de aprender e produzir sempre, desde que não tenha algum tipo de impedimento que comprometa o seu desempenho, fato que pode ocorrer em qualquer fase da vida, independente da idade cronológica. Essa visão é fundamental para que se possa pensar na inclusão social do velho. A velhice é um tempo de perdas e aquisições, assim como as outras fases da vida.
O envelhecimento é um processo natural, dinâmico e velhice não é sinônimo de doença. É fato que as condições que o acompanham incidem diretamente na qualidade de vida, podendo sofrer alterações determinadas por intervenções médicas, sociais, econômicas e ambientais. Estudar a velhice portanto, significa considerar a complexidade de temas a ela relacionados, por isso, necessariamente, devendo a mesma ser estudada através de uma perspectiva multidisciplinar. Segundo Moragas:
A idade constitui uma variável objetiva e essencial, mas não determinante da condição da pessoa, visto que, por si só, nos diz muito pouco, considerando-se a diversidade existente entre os indivíduos. Para uma valoração integral da pessoa, a variável idade deve estar acompanhada de outras originárias, como: sexo, raça, origem familiar e de outras, adquiridas como: educação, carreira profissional, status social, família de orientação ou de matrimônio. Dessa forma teremos uma visão integral da pessoa. (MORAGAS, 2004, p.21)
Desta forma podemos considerar três aspectos fundamentais para aprofundar estas questões:
a- O homem não envelhece, ele se atualiza a vida toda. A vida é processo.
b- A limitação das capacidades intelectuais está diretamente ligada à maneira como vivemos, em relação aos níveis de dependência e proteção, que se organizam a nossa volta.
c- A família é o grupo, por excelência, que protege e assiste: desta forma pode ser estimuladora mas, na maioria das situações, no afã de realizar o que pensa ser sua tarefa, passa a ser fonte de inibição às capacidades intelectuais de seus integrantes.
Para ensejar mais reflexão finalizamos este pequeno trabalho com o importante pensamento de Simone de Beauvoir:
“Como deveria ser uma sociedade, para que, em sua velhice, um homem permanecesse um homem? A resposta é simples: seria preciso que ele fosse sempre tratado como homem.”)
Como ficarão estas questões se estivermos tratando do cidadão idoso?
A questão do envelhecimento da população e a possibilidade de aumentar esse período da vida, em virtude de novas possibilidades do mundo moderno, nos remete a caracterizar o envelhecimento populacional como uma questão social. Essa situação é nova para o Brasil, um país conhecido pela quantidade de crianças e jovens, mas e envelhecimento populacional vem ocorrendo em todo o mundo e por isso tem sido debatido nos eventos internacionais que se preocupam com o futuro do homem. As pessoas idosas, depois de de 30 ou 40 anos no sistema produtivo, passam à fase do desligamento da produção, necessitando que o sistema previdenciário supra suas necessidades.
Sabemos que isto não ocorre de forma tão tranqüila: no Brasil encontramos a maioria dos aposentados com mudanças radicais em suas vidas, sob o jugo da falta de rendimentos e o aumento de comprometimentos físicos próprios das idades avançadas. Tiveram que aprender, através do sofrimento pessoal, que alguma coisa deveria ser feita.
Mas o que deveríamos esperar desses homens e mulheres, envelhecidos em sucessivos períodos governamentais de tradição protecionista, quando se tirou a possibilidade mais sofisticada da inteligência humana que é a de conhecer a realidade, criticá-la, refletir, tomar decisões, enfim, ser sujeito da própria história? Dessa forma, de maneira geral, encontramos a população idosa brasileira com três características básicas: baixa renda, como resultante de um sistema previdenciário montado e desmontado por sucessivos e rocambolescos planos governamentais, com total ausência de participação popular: excesso de tempo livre, que ao invés de ser fonte de prazer passa a ser lembrança de inutilidade: falta de consciência crítica, que os leva a pensar que outras pessoas intercederão por eles.
Os problemas sociais são tratados através de políticas sociais, geralmente sob a égide do Estado, para abranger toda a população. No entanto, a verticalidade ( de cima para baixo) pode ser usada para realizar controle social ou desmobilizar as lutas dos desiguais. Dessa forma, a ação que viria para sanar as desigualdades sociais pode conter detalhes, em sua formulação, que beneficiarão alguns privilegiados que têm meios de controlar as instâncias decisórias.
A questão está em saber de que forma estamos falando de desigualdade social. Optamos por acompanhar a reflexão de Pedro Demo, assim,
a desigualdade social é uma marca estrutural de qualquer história, precisamente no sentido de que a historicidade não é algo conjuntural, mas da essência da realidade social. A história é dinâmica porque é desigual. Toda formação histórica é suficientemente conflituosa, para ter que se superar como fase. Uma história sem conflitos radicais coincidiria com a destruição da própria dinâmica histórica, o que sempre não passa de ardil do poder: somente quem está no poder pretende pintar a história como não-conflituosa, dentro do estratagema milenar de desmobilizar os marginalizados. (Demo,1994,p.15).
Pode-se concluir que as desigualdades poderão ser minoradas, mas jamais desaparecerão. Daí a importância das políticas sociais. Em um país como o nosso, com um capitalismo subdesenvolvido, onde a distribuição de renda chega a índices tão absurdos que não se acredita neles, as políticas sociais são necessárias e arriscadas, para o próprio sistema, dentro do que poderá suscitar a nível de mobilização. Quando falamos em mobilização, em sujeitos coletivos, em lutas por direitos, está sempre implícita a idéia de que se enfrenta as desigualdades a partir dos desiguais.
É importante lembrar que as políticas sociais não devem ser só sobre uma melhor distribuição de renda, mas que podem procurar também redistribuir o poder. Este, quando nas mãos de poucos e excessivamente centralizado, tende sempre ao desvio, saí o movimento crescente em nosso país pela municipalização dos serviços, pelas representações locais, por exemplo,a partir do processo Constituinte que resultou na Constituição Cidadã de 1988.
E, em geral, as políticas sociais trabalham sobre os efeitos dos problemas, mas são muito mais eficazes e menos cara quando realizadas preventivamente. Quando se trabalha sobre o problema social já em curso parte-se, quase sempre, para o socorro, a distribuição de objetos, o que descarta o necessário como sujeito no enfrentamento da situação.
A emancipação é a idéia que vem sempre ligada à política social, que se concretiza à medida que as pessoas tenham meios para se sustentar e exercer sua cidadania.
O exercício da cidadania se depara, via de regra, com uma realidade dinâmica, onde é preciso compreender para poder participar. Vejamos :
De um lado, o grupo dominante investe em estratégias de obstaculização, seja pela sonegação da educação, pela manutenção de currais eleitorais, pelas organização partidária com base na influência econômica, no cultivo de dinastias políticas, seja pela persistência da pobreza material, que é apenas o outro lado da mesma medalha. De outro, a dita sociedade civil tem diante de si o desafio de se reconhecer como sujeito indispensável de seu projeto de emancipação e de construir, nas gerações, as condições de uma democracia competente. O pobre que ainda não sabe que é pobre e que é injustamente pobre, não tem condição mínima de conceber e efetivar qualquer saída. (Demo,1991, p.18).
Quando pensamos na cidadania dos mais velhos temos que ter presentes quais são os principais inibidores dessa prática, para entender melhor o que entrava esse processo. A saber:
Fase da vida, quando a participação diminue pela aposentadoria, menos atribuiçoes dentro da família, viuvez, levando ao isolamento e alheamento das questões de todos.
Falta de prática políticas dos brasileiros, resultando em velhos brasileiros sem tradição de participação política.
Desconhecimento dos sujeitos coletivos, o que faz as pessoas pensarem pequeno, só em seus problemas pessoais.
Percebemos que há uma grande luta a ser travada para se chegar ao exercício da cidadania. No meio de tanta luta pessoal terão, mais uma vez , que exercitar a generosidade, dividindo idéias e ações com outras mulheres e homens na busca da cidadania na velhice. Poderão estar mais frágeis fisicamente, mas mais fortes por terem sabido participar e se emancipar.
Poderão até precisar de ajuda para compreender tudo isto e saber reelaborar o futuro, percebendo que o importante é não se negar a ver a realidade. Esta questão vale também para todos os profissionais que trabalham com pessoas e deverá suscitar reflexão sobre o modo como as vêem.
Podemos aprender por toda a vida. Quando se fica mais velho vai diminuindo o ritmo, a rapidez em perceber o novo conhecimento. O idoso precisa de mais tempo e estímulos motivadores mas, de maneira nenhuma a velhice não inibe a capacidade de aprender.
Se a pessoa tem por hábito ler, debater idéias, escrever, pintar, por exemplo, terá mais facilidade para aprender algo novo como computação, desvendar os aparelhos eletrônicos e, conseqüentemente, ir entendendo a atualidade, que é de todos, jovens e velhos.
A reflexão crítica que leva a passar do preconceito para o conceito só é possível se houver raciocínio, portanto é um processo mental que ordena nossa percepção e aprendizagem. Os idosos procuram ser mais precavidos, mais cautelosos, até por ter mais experiência de vida, quando apresentam seu raciocínio sobre alguma coisa ou fato.
Podemos estimulá-los ao debater assuntos ou situações novas ou diferentes, por exemplo, discutir comportamentos dos jovens; debater sobre comportamentos sexuais; discutir sobre mudanças de comportamento; encontrar novas soluções para problemas antigos. O que ajuda no desenvolvimento da capacidade de abstração.
A possibilidade de mudar, de entender o novo, é característica a ser observada no comportamento dos mais velhos.Edgard Morin nos diz:
O conhecimento deve estar tão aberto ao conhecimento que se reconheça a possibilidade do erro ou da ilusão. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez.(MORIN, 2002, p.14).
Esta aptidão não diminui com a idade mas, os mais jovens procuram esconder problemas dos mais velhos ou, se apressam em resolvê-los sem perguntar o que o velho pensa sobre ele (o problema). A falta de oportunidade e de respeito por sua capacidade leva o velho a ficar embotado na solução de problemas.
Estimula-se esta capacidade apresentando situações problemas para serem discutidas e solucionadas. Colocam-se dificuldades para “complexar” a situação e tornar a solução mais importante.
A criatividade humana fundamentada em princípios encontrará soluções para resolver os problemas dos desiguais, sem sujeição, logo, com a participação de todos.
Ser desigual subentende ter força diferente diante de alguma coisa ou situação. Ser diferente é a essencia da originalidade de cada um. Na sociedade brasileira, tão marcada pela desigualdade, onde ser excluído é quase natural, com tradição de governos reguladores,surge o texto constitucional de 1988, propondo igualdade de princípios entre homens e mulheres, entre jovens e velhos e entre brancos e negros.
Temos certeza que todos os indivíduos poderão vir a ser cidadãos. Terão, no entanto, de passar por um processo de compreensão da própria individualidade para depois poderem compreender sua participação nos sujeitos coletivos e entenderem sua condição humana.
A ação do Serviço Social.
O Estado,à medida que as relações sociais de produção se complexicam, reordena suas ações, instituindo políticas e criando organizações prestadoras de serviços específicos.
A implementação dessas políticas espraia-se pela prática de diversos profissionais,inclusive os assistentes sociais, que têm como campo de trabalho a administração e prestação de serviços sociais.
Se o Estado,para realizar tais políticas,trabalha com verbas arrecadadas através de impostos pagos pela própria população, assim toda a população teria direito aos mesmos. Mas as políticas sociais procuram responder às necessidades dos excluídos, dos desiguais, reafirmando essas características.
Lembrando que é na luta dos sujeitos coletivos, que antes poderiam estar na condição de excluídos,que a cidadania se constroe històricamente.Assim não é a prática do assistente social, nem de outros profissionais, que realiza esta tarefa. A prática profissional quando refletida e fundamentada sobre princípios, poderá dar condições para que o processo de assunção da cidadania, aconteça.
Julgamos que o Serviço Social trabalhando numa linha de ruptura com a tradicional e a modernizadora, quando sabe lidar com as contradições geradas nas desigualdades, nas diferenças, nas especificidades, sem exclusão e sem sujeição, em qualquer instância das relações sociais , saberá cumprir sua intervenção. O que estará em jogo será a luta pela conquista da igualdade, da cidadania e dos direitos, contra a violência da sujeição, para que as pessoas possam se complementar numa sociedade que apresente possibilidade de realização humana.
Em relação à pessoa idosa é fundamental observar que da cidadania de segunda categoria passamos a uma cidadania de homens e mulheres idosos e,se ainda estamos divididos entre a lógica da igualdade e a da diferença, reconhece-se uma sociedade onde se espera que homens e mulheres sejam iguais diante de direitos e obrigações.
A extensão e o conteúdo da cidadania, no entanto, variam conforme as metas e objetivos que o Estado traça para a sociedade. Desta forma, podemos concluir que a cidadania estará sempre dentro dos limites possíveis do Estado burguês.
Nossas reflexões em torno dessa temática está imbricada com a questão do envelhecimento e está centrada sobre a condição de existência de cidadãos válidos, que têm projetos de vida, trabalham e lutam por qualidade de vida, e, constituem-se, inicialmente, no objeto do Conhecimento do Serviço Social, que faz parte de nossas investigações temáticas sobre Trabalho, Qualidade de Vida e Envelhecimento. Mas especificamente o estudo do Envelhecimento nas relações sociais de Produção, no mundo do Trabalho, será o objeto temático central.
Julgamos, ainda, ser muito importante enfrentar a questão social do envelhecimento, neste século,na perspectiva de ruptura analítica do processo histórico brasileiro de pesquisa, que muito pouco produziu sobre a violação de direitos sindicais, desemprego, indignidades, iniqüidades, desafetos e políticas públicas desestabilizadoras da luta de classe dos trabalhadores.
Assim, ao destacarmos a população com mais de 60 anos e apta para suas atividades laborais, e, que rapidamente engrossa a massa de aposentados, ou não, e que terão no Brasil sobrevida aumentada pela qualidade de vida moderna. Avaliamos que essa massa de pessoas necessitará de cuidados de saúde, oportunidades de trabalho para complementação de seus rendimentos e que participará de uma sociedade mais informatizada e dinâmica que a atual, onde as demandas para o lazer e atividades criativas, implicarão em mais qualidade de vida e trabalho para muitos cidadãos.
Os profissionais que se dedicam às pessoas idosas terão que repensar e resolver velhas idéias, preconceitos, procurar conhecer o que de fato se apresenta. Para tanto é necessário manter o espírito investigativo que nos demonstra nunca estarmos prontos e acabados. Nós e as pessoas a nossa volta. A realidade é complexa, cheia de meandros que precisam ser desvendados.
Para concluir apresentamos o pensamento do escritor argentino Adolfo Bioy Casares sobre a velhice, o que nos fez pensar muito, quando ainda éramos bastante jovem:
“ O homem prudente planeja, com tempo, a sua estratégia contra a velhice. Se pensa nela entristece, perde o ânimo, os outros dizem que se entrega antes da hora. Se procura esquecê-la, lembram-lhe que para cada coisa há o seu tempo e chamam-no de velho ridículo. Porque a verdade é que, contra a velhice, não há estratégia.”(AB Casares, p.92).
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