12 mai 2011
Socializar a riqueza para combater a desigualdade social
A – ASPECTOS CONJUNTURAIS
1- O MITO DO DESENVOLVIMENTO COMO PROGRESSO
A socialização da riqueza como temática importante do desenvolvimento econômico e social, retorna ao debate na literatura atual, tanto nas Ciências Sociais quanto no Serviço Social, partindo da idéia, que se dá por evidente, segundo a qual, a riqueza existente nos países do chamado primeiro mundo: países que lideraram a Revolução Industrial e que alcançaram altos padrões de consumo e qualidade de vida para uma minoria – pode ser universalizada para as grandes massas de população em rápida expansão dos países que formam o chamado terceiro mundo. Essa idéia constitui um mito do progresso, essencial para vitalizar a ideologia burguesa e suas políticas neoliberais que impulsionam a atual sociedade industrial. No contexto dessa delimitação de visão da realidade, priorizaram-se as decisões sobre o econômico em detrimento do humano e do social.
A imaginação sociológica, nesse contexto, passa a conceber complexos esquemas para sustentar o processo de acumulação do capital no qual a ênfase dada ao progresso tecnológico, ocorre fora de qualquer conjuntura da realidade humana e social. Pois, o econômico suplanta o social e a condição humana degrada-se. Isso ocorreu, por exemplo, na Inglaterra a partir de 1979, quando do Governo de Margaret Thatcher; e, nos Estados Unidos, a partir de 1980, durante o Governo de Ronald Reagan, quando ambos iniciaram a chamada experiência neoliberal que dá forte impulso no mundo às políticas de conteúdo ideológico liberal, que ocasionaram, por exemplo, seguidas ondas de privatizações, desregulação econômica, redução dos impostos, abolição dos controles de câmbio, derrota do poder dos sindicatos, concentração crescente da riqueza e não distribuição equitativa da mesma.
2 – A CRISE GLOBAL
Por mais de trinta anos, acreditou-se na criação incessante de uma riqueza fictícia, concentrada em bancos e manejada sem limites por uma elite de grandes executivos que manipulavam a riqueza real, ou seja, escondiam-se, esses gestores, detrás de grandes ganhos financeiros que remuneravam um capital irreal, muitas vezes, escondido por orçamentos manipulados tecnicamente. Essa experiência neoliberal fracassou, na medida em que ao longo de sua execução apresentou, como resultados, baixa taxa de crescimento econômico e social; concentração de renda em toda parte do mundo; aumento da pobreza sócio-econômica e política. Os balanços sociais, desses resultados, nos últimos trinta anos, apontam para a diminuição do crescimento econômico e social e instabilidade econômica; aumento do desemprego; redução dos salários; diminuição do poder dos sindicatos dos trabalhadores; aumento da pobreza e intensificação da concentração da riqueza em mão de uma minoria especuladora organizada em setores financeiros e bancários.
3 – O FIM DE UM PROCESSO DAS POLÍTICAS NEOLIBERAIS ?
A crise global insistentemente anunciada como conseqüência dessa experiência neoliberal, toma rumo preocupante durante o período do segundo mandato do Governo Bush que perde a confiança do povo Norte Americano em seu Governo, e, em 15 de setembro de 2008, com a quebra do Banco Lehman Brothers, a crise global agrava-se não somente na poderosa economia americana, mas, também, para toda economia mundial, na qual repercute e espalha seus efeitos nocivos.
A instabilidade econômica mundial do final do Governo Bush, em 2008 põe um fim à experiência neoliberal, tal como a vínhamos considerando até aqui. Essa crise global aprofunda, também, as tentativas de reforma e continuísmo do liberalismo econômico que ainda não se esgotou, mas que se apresenta, para o mundo, com nova roupagem, novos personagens e novo fôlego de sustentação do modo – de – produção capitalista.
Nesse aspecto, o estilo de governo, iniciado em 2009, pelo líder Barak Obama nos Estados Unidos é exemplar: está apoiado em ampla confiança do povo; não descarta o reconhecimento da Crise Global, indicando que a mesma manifesta-se de maneira diferente no atual estágio do capitalismo. Assim, esse Governo obtém a sinergia política necessária para reformar o sistema em crise sistêmica terminal; porém, ao se recusar a estatizar o sistema financeiro especulativo, neoliberal, pois isso indicaria uma intervenção típica socializante, injeta recursos jamais imaginados no setor causador do horror econômico: os banqueiros e seus altos executivos. Confirma, assim, seus vínculos de compromissos com a elite burguesa não só de seu país; mantém, também, a guerra de intervenção e de desrespeito a autodeterminação dos povos pelo mundo afora; ainda mais, intensificando, agora, no Afeganistão, uma grande ofensiva inútil de perdas de vidas da juventude de seu país e gasto astronômicos de recursos financeiros para sustentação e continuidade de uma política de guerra fria. Essas medidas intensificam a miséria e a pobreza, além de alavancar, intensivamente, uma economia do Estado Militarista e de seu Complexo Industrial Econômico.
B – O BRASIL E A CRISE GLOBAL
No Brasil, por exemplo, podemos constatar os efeitos perversos dessa crise global contabilizada na manutenção de altos lucros de uma elite insensível aos dramas do enfrentamento da desigualdade no país. Esses altos ganhos, auferidos em sua maior parcela em cima de tramas especulativas de mercado por uma burguesia que detém o capital financeiro a salvo, até em paraísos fiscais, em verdadeiros clubes de jogos especulativos, dessa prática econômica desenfreada que produz, na classe trabalhadora, perdas irreparáveis. A blindagem do sistema financeiro feita pela política econômica do Governo Brasileiro no interesse do capital externo e interno favorece a acumulação do capital e sua recuperação nas mãos de uma elite interessada em seus ganhos e alheia aos problemas do povo brasileiro. Os 14% alcançados com a queda da produção industrial no país, verificada entre o ultimo trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, são resultados preocupantes, pois, além de registrarem a continuidade das políticas do arrocho salarial, do desemprego, da fome e miséria da classe trabalhadora, também, demonstram, a dificuldade e ineficiência Governamental, em socializar a riqueza e intensificar o combate a desigualdade sócio-econômica e política.
A atual crise de imaginação sociológica do Governo Brasileiro perde-se na sua ineficiência de gestão pública, ao deixar escapar de suas mãos, o combate eficiente da desigualdade social, com políticas socialistas, participativas, planejadas e executadas por um vigoroso poder central político, que demonstraria sua eficácia, enraizado no Estado e no Conjunto da Sociedade Civil e Política.
A Crise Global atinge o País, em um momento ideológico e político, onde as forças anacrônicas do conservadorismo e reformismo ganharam a mídia e desmobilizam as massas das ruas, enfraquecendo o movimento e lutas reivindicativos, dificultando a construção da democracia participativa.
A concentração da riqueza em mãos da burguesia financeira acaba dando a direção social ao Estado Brasileiro que suporta a produção e reprodução descontrolada do capital, destruindo a esperança da Nação na construção de uma sociedade verdadeiramente humana. Pois, destrói esforços em busca de alternativas transformadoras. Esses esforços, supõem, de outra maneira, em somar energias para a construção da ideologia na lógica do socialismo. Exigiria a planificação global da sociedade com o estabelecimento de um poder econômico centralizado político e social. Esse poder central que intervém no Estado através de intensa participação social e democrática, não descartaria a existência do partido político único que organizaria o Estado e o Conjunto da Sociedade Civil e Política a favor dos interesses da possibilidade de construção de uma nova ordem social verdadeiramente humana.
C – PERSPECTIVAS PARA UMA REFLEXÃO: O SERVIÇO SOCIAL E SEU PROJETO ÉTICO – POLÍTICO NO ENFRENTAMENTO DA ATUAL CRISE
Podemos inferir, ainda, que o contínuo progresso da Ciência, da Técnica da Automação, Robotização, da Cibernética, etc. produziram na atual crise, mais desemprego, fome, miséria e pobreza para a classe trabalhadora. Simultaneamente, esse processo concentra lucros para uma minoria. E, também, que as formas de atuação da política da assistência, seguridade social e serviço social evoluíram de formas de ajuda misericordiosas, paternalistas, filantrópicas, para a formatação atual do serviço social como forma de enfrentamento político da questão social que é uma questão gerada pela condição da classe trabalhadora.
O serviço social, em sua trajetória histórica, tem buscado organizar seu aparato técnico, interventivo, ético, político e social para enfrentar a crise global do modo de produção capitalista, através de políticas públicas estatais ou privadas de uma forma responsável e competente, por exemplo, durante o período de 2002 a 2007. Mas, a partir do momento em que eclode a crise global atual, numa dinâmica e velocidade impensáveis, isto é, a partir de setembro de 2008, o Serviço Social procura organizar mais refinadamente seu arsenal interventivo no enfrentamento da desigualdade social.
Amplia fóruns para propiciar um amplo debate teórico sobre o socialismo ou barbárie. Reflete criticamente sobre a formação profissional e educação e socialismo. Enfim atualiza sua pauta teórico e prática para enfrentar a pobreza e a desigualdade social, tendo algumas certezas históricas acrescentadas junto a muitas incertezas e desafios incluídos em sua bagagem de luta.
Sugere, assim, em nossa percepção, ao debate, proposta de reflexões interdisciplinares, em torno de um rol aleatório de idéias, tais como:
a) Constata-se que o Brasil executa uma política de desenvolvimento econômico, político e social orientada para satisfazer uma pequena minoria da população. Essas políticas neoliberais, paternalistas, agravam as desigualdades sociais e elevam os custos sociais do sistema econômico. Por exemplo, quanto mais diversificada for oferecida uma cesta de bens de consumo, maior terá de ser a renda das pessoas que consomem esses bens, sendo, ainda, maior a soma de capital exigida para satisfazer as necessidades dessa pessoa.
Isso significa, para o Brasil, que o conjunto de bens de consumo ao qual o brasileiro médio tem acesso, tem de ser muito menos diversificado do que o oferecido nos países, como, por exemplo, nos Estados Unidos. Devemos criar uma alternativa de produção e consumo nacional em defesa de nossos interesses e menos dependente dos interesses externos e impositivos de qualquer país. Não devemos nos isolar da ordem mundial, mas sim, lutar para o estabelecimento de uma nova ordem reguladora, econômica, política e social que respeite a autodeterminação dos povos.
b) Entende-se ser necessário definir como política efetiva de desenvolvimento econômico, isto é, a acumulação do capital, deva ser feita através da adoção de processos produtivos mais eficientes, que favoreçam a redução da miséria e pobreza existentes.
c) Indicar ser a exploração dos recursos naturais não renováveis ocorrerem somente sob o controle do Estado.
d) Julgar ser oportuno agir com maior rapidez na realocação de recursos visando a uma especialização num sistema de divisão internacional do trabalho.
e) Entender que a partir dos anos 90 do Século XX ocorreu um processo de ocidentalização que se espalhou pelo mundo: o chamado processo de globalização que unifica o mundo pela técnicologia e economia, fragmentando o conhecimento humano e mantendo-o sob a direção ideológica de grandes nações.
Esse processo global, no Século XXI, coloca para toda a sociedade brasileira a questão de Ser Humano como uma possibilidade jamais pensada antes no planeta. Pois, a subjetividade humana tem que ser construída criticamente para superação da barbárie, da desumanização a que a humanidade alcançou com o capitalismo. Deve-se, nesse contexto, estimular o Conhecimento Crítico para se pensar e viver para além das determinações do capital e da sujeição humana.
BIBLIOGRAFIA
FERRY, L. Aprender a viver; tradução Vera Lucia dos Reis. – Rio de Janeiro : Objetiva, 2007
IAMAMOTO, M. V.. Serviço Social em tempo de capital fetiche : capital financeiro, trabalho e questão social – São Paulo : Cortez, 2007
OLIVEIRA, F. Crítica à razão dualista. O Ornitorrinco. – São Paulo : Boitempo Editorial, 2006.
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